Muitas mulheres recebem o diagnóstico de endometriose acreditando que toda a sua dor está relacionada apenas às lesões encontradas nos exames. No entanto, a ciência tem mostrado que a relação entre endometriose e dor é muito mais complexa.

É comum encontrar mulheres com lesões extensas e pouca dor, enquanto outras apresentam dor intensa mesmo quando os exames mostram poucas alterações. Isso acontece porque a experiência da dor envolve não apenas os tecidos, mas também músculos, fáscias, nervos e o próprio sistema nervoso.

O que sabemos hoje sobre a endometriose?

A visão tradicional de que a endometriose seria apenas um “tecido do endométrio fora do útero” vem sendo questionada e ampliada. Atualmente, a doença é compreendida como uma condição complexa, associada a processos inflamatórios, alterações mecânicas dos tecidos, sensibilização do sistema nervoso e impacto importante na qualidade de vida da mulher.

Por isso, olhar apenas para o exame de imagem nem sempre explica o que a paciente sente.

Por que a dor pode continuar?

A dor associada à endometriose pode envolver diferentes mecanismos:

Alterações musculares

Quando uma mulher convive com dor durante meses ou anos, é comum que os músculos do assoalho pélvico permaneçam em estado constante de proteção e tensão.

Esse aumento da atividade muscular pode contribuir para:

  • Dor na relação sexual.

  • Dor pélvica persistente.

  • Sensação de peso na pelve.

  • Desconforto ao evacuar.

  • Sintomas urinários.

Alterações da mobilidade dos tecidos

Diversos autores da fisioterapia pélvica descrevem que restrições fasciais, aderências conectivas e diminuição da mobilidade dos tecidos profundos da pelve podem estar associadas à manutenção da dor em parte das pacientes.

Sensibilização do sistema nervoso

Hoje sabemos que a dor pode permanecer mesmo quando o estímulo inicial diminui.

A literatura descreve fenômenos de sensibilização periférica e central, nos quais o sistema nervoso se torna mais sensível à dor ao longo do tempo. Isso ajuda a explicar por que algumas mulheres continuam sofrendo mesmo após cirurgia ou tratamento medicamentoso.

Qual o papel da fisioterapia pélvica?

A fisioterapia pélvica não tem como objetivo “curar” a endometriose. Seu papel é avaliar e tratar fatores musculares, fasciais, funcionais e comportamentais que podem estar contribuindo para a dor e para as limitações da paciente.

Durante a avaliação podem ser observados:

  • Mobilidade dos tecidos pélvicos.

  • Tensão muscular.

  • Coordenação do assoalho pélvico.

  • Sensibilidade dolorosa.

  • Padrões respiratórios.

  • Alterações posturais e de movimento.

A partir dessa avaliação, o tratamento é individualizado conforme as necessidades de cada mulher.

O que a fisioterapia pode ajudar a melhorar?

Entre os benefícios frequentemente relatados estão:

  • Redução da dor pélvica.

  • Melhora da dor durante a relação sexual.

  • Melhora da mobilidade dos tecidos.

  • Redução de tensões musculares.

  • Melhora da função intestinal e urinária.

  • Retorno mais confortável às atividades diárias.

Um ponto importante: seu exame não mede sua dor

Uma das maiores frustrações de quem convive com endometriose é ouvir que “está tudo bem” porque o exame não mostrou alterações significativas.

A intensidade da dor não depende apenas do tamanho ou da quantidade de lesões. A dor é uma experiência complexa e individual, influenciada por fatores biológicos, mecânicos e neurológicos.

Por isso, mulheres com exames semelhantes podem apresentar experiências completamente diferentes.

Quando procurar uma fisioterapeuta pélvica?

Você pode se beneficiar de uma avaliação especializada se apresenta:

  • Dor pélvica frequente.

  • Dor na relação sexual.

  • Sensação de peso ou pressão na pelve.

  • Dor para evacuar.

  • Sintomas urinários associados.

  • Dor persistente mesmo após cirurgia ou tratamento medicamentoso.

Conclusão

A endometriose é uma condição complexa e multifatorial. A dor não está necessariamente relacionada apenas às lesões encontradas nos exames. Alterações musculares, restrições de mobilidade dos tecidos e mecanismos de sensibilização do sistema nervoso também podem participar desse processo.

Por isso, o tratamento ideal costuma ser multidisciplinar. A fisioterapia pélvica pode contribuir para a melhora da função, redução da dor e recuperação da qualidade de vida, ajudando a mulher a retomar atividades que muitas vezes foram limitadas pela doença.

Beatriz Lima | Fisioterapeuta Pélvica
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